A MISSÃO DO CASAL CRISTÃO

- estar a serviço dos irmãos –

 

Mariola e Elizeu(*)

 

1. Missão na Empresa

Todos, de algum modo, conhecemos ou temos relação com uma organização (de governo, ONG, etc.) ou empresa (industrial, comercial, de serviços, etc.).

Para se posicionarem estrategicamente no mercado, costumam fazer seu planejamento, elaborar projetos, fixar objetivos e metas, prover recursos financeiros necessários, e assim por diante.

Uma das fases da formulação estratégica das organizações ou empresas é definir a MISSÃO.

 

a) O que é Missão? Para que serve?

·        A missão define a razão de ser da organização ou empresa;

·        A missão é uma declaração de princípios, valores e crenças;

·        A missão revela o que a organização ou empresa deseja ser e a quem servir (ou atender, enquanto cliente).

 

b) Quais são os atributos estratégicos importantes da missão?

·        Direção: transmite a noção competitiva desejada (por exemplo: ser líder);

·        Descoberta: transmite uma promessa que garanta o diferencial competitivo no mercado;

·        Destino: transmite um desafio forte para todos.

 

As empresas, organizações e instituições que querem crescer, se desenvolver, se manter e se perpetuar no mercado criam as condições necessárias para isso. Uma delas, é prover os recursos humanos necessários (em quantidade e qualidade) para esse crescimento. Desenvolvem competências, habilidades e atitudes nos seus colaboradores para serem diferentes, melhores e conquistar sempre mais novos mercados.

 

2. Missão do cristão

Na Missa da Quinta-Feira Santa, antes do lava-pés, assim foi lido pelo comentarista: “O lava-pés é um dos gestos mais expressivos da missão e identidade de Jesus: estar a serviço do Pai e dos irmãos”.

Portanto, a missão do cristão é SER IGREJA, isto é, trabalhar na vinha do Senhor; ser um membro vivo da videira de Cristo; ser um sujeito ativo na missão de salvação proposta por Jesus Cristo.

·        Ser Igreja: é ser um povo de servidores do Evangelho;

·        Ser Igreja: é ser um instrumento de instauração do Reino de Deus entre os homens;

·        Ser Igreja: é viver a fé em Jesus Cristo de modo encarnado nos outros.

 

O Documento de Santo Domingo apresenta uma grande denúncia: a maior parte dos batizados ainda não tomou plena consciência de sua pertença à Igreja, do seu Ser Igreja. Sentem-se católicos, mas não Igreja.

Poucos assumem os valores, os princípios e as crenças cristãs como elemento de sua identidade, não sentindo a necessidade de um compromisso eclesial e evangelizador.

SER IGREJA é ser povo de Deus enviado para todas as condições e modos de vida (ou culturas), e aí exercendo, guiados pelo espírito evangélico, como fermento que atua por dentro, a missão de salvação e de santificação do mundo.

SER IGREJA é contribuir para tornar visível o Cristo nos outros, pelo testemunho de vida e com o fulgor da fé, da esperança e da caridade.

São Paulo concluiria assim: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (GL 2,20)

A Exortação Apostólica Christifideles Laici (CL), que trata da vocação e missão dos leigos na Igreja e no mundo, afirma que o SER IGREJA é uma das grandes urgências do mundo atual. E ela é categórica: “Os fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja, têm por vocação e por missão anunciar o Evangelho”. Evangelizar é, pois, fazer chegar a Boa Nova a todos. É colocar “a Boa Nova como fonte de esperança no meio de tantos conflitos que surgem no coração do homem e na sociedade desigual, impedindo a realização do projeto de Deus”.

Evangelizar é reconhecer-se Igreja missionária. É reconhecer o mandato do Senhor, fortalecido no Pentecostes, que fez com que os discípulos assumissem sua tarefa apostólica.

A missão de Jesus Cristo foi evangelizar. A missão da Igreja é evangelizar. A missão do fiel leigo, como Igreja, é evangelizar. Existe aí, pois, uma ligação muito profunda entre Jesus, a Igreja e a evangelização.

Devemos afirmar como São Paulo: “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim. É, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se não evangelizar”. (1Cor 9,16)  

 

Direção: ser discípulo de Jesus

Descoberta: anunciar o Evangelho de Jesus Cristo

Destino: instaurar o Reino de Deus entre os homens (Puebla)

 

3. Missão do casal

Diz o Papa João Paulo II: A primeira e a mais importante via da Igreja é a família. É uma via da qual o ser humano não pode separar-se.

O casal é chamado, como um sujeito consciente e responsável, a viver um “junto” com o outro e, mais ainda, um “para” o outro, formando assim uma só pessoa de acordo com o projeto de Deus.

Os esposos participam da função redentora de Cristo, ao assumirem integralmente, por vocação divina, a finalidade para a qual o matrimônio foi instituído.

Cada união nasce pelo pacto entre um casal, mas com um conteúdo divinamente estabelecido: a unidade e a indissolubilidade, ordenado à criação e educação dos filhos, à salvação de todos.

O casal cristão deve exercer seu múnus conjugal e familiar em virtude do Sacramento do Matrimônio recebido, como também deve comunicar generosamente as suas riquezas espirituais e vivenciais aos outros casais e outras famílias.

Como nos diz o Documento Pastoral da Conferência Episcopal Italiana, de maio de 1990: “A família é o primeiro e originário lugar onde se pode experimentar tudo o que acabamos de dizer. A criança toma consciência de estar viva através do afeto materno e paterno que a cerca. Física e afetivamente vive da mãe e do pai. A estabilidade da família e a harmonia entre os pais são, pois, uma exigência vital. Por sua parte, o filho contribui para que os pais desenvolvam compreensão e maturidade em sua conjugalidade. O afeto paterno e materno faz com que a criança possa crescer através do dom de si, que é característica da vocação dos pais, de modo especial da mãe. Através da reciprocidade e da gratuidade das relações, a vida familiar suscita, em todos os seus membros o sentido de viverem juntos, uns vivendo para os outros; constrói, com a existência de cada dia, tecido de respeito e de diálogo, de acolhimento e solidariedade que torna a família a primeira escola de humanidade”.

 

Direção: ser casal cristão

Descoberta: viver cristãmente as realidades conjugal e familiar

Destino: desenvolver a célula básica da Igreja e da sociedade, levando-a à salvação

 

4. Missão do casal equipista

O documento sobre A Segunda Inspiração estabelece o essencial para que seja possível reconhecer a condição do SER IGREJA do nosso Movimento das Equipes de Nossa Senhora. Logo de início adverte para a necessidade de sua contínua renovação. Longe de ser na Igreja um movimento conservador para simplesmente manter a fé dos casais, deve ser fermento de renovação da Igreja, do mundo, da família, do Sacramento do Matrimônio, da espiritualidade conjugal, da espiritualidade familiar, etc.

Em sua última parte, por exemplo, enfatiza que as equipes de base não podem fechar-se sobre si mesmas. Inserindo-se no Movimento que objetiva a espiritualidade conjugal – sua vocação, portanto –, tem por missão:

·        Anunciar a Boa Nova do casamento e da família;

·        Contribuir para a construção do Reino de Deus baseando-se numa nova imagem do casal e da família;

·        Atuar de modo eficaz na pastoral familiar;

·        Assumir outras tarefas apostólicas de acordo com a vocação e o carisma de cada casal.

É comum ouvir de alguns casais e equipes o seguinte comentário ou justificativa: ainda não estamos totalmente maduros para exercermos nossa vocação e missão no Movimento, na Igreja, no mundo. Ainda não estamos preparados. Ainda não temos uma formação adequada, que nos permita falar, coordenar grupos, etc. E tantas outras razões!

E no trabalho profissional? E na família, como pais e educadores?

De um lado, isto revela ignorância religiosa e pouca espiritualidade; revela limitado compromisso com a sua condição de batizado; revela pouca pertença à Igreja; revela desconhecimento de que a evangelização se realiza, antes de tudo, deixando-se evangelizar, etc. De outro lado, a situação de comodismo revela em grande parte esta ruptura entre o compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo e a vida.

Neste caso, é preciso enfatizar: os casais e, conseqüentemente, o próprio Movimento das Equipes de Nossa Senhora, não podem esperar atingir a plena maturidade eclesial e, só então, começar a preocupar-se com a missão para além de “suas fronteiras”.

A maturidade eclesial é conseqüência e não apenas condição de abertura e compromisso missionário. Está condenado à esterilidade o Movimento e o fiel leigo casado que deixam atrofiar seu espírito missionário, sob a alegação de que ainda não estão plenamente preparados para exercer sua missão junto a outros casais e famílias, na Igreja, no mundo, etc.

Como diz a CL, os casais cristãos e as famílias cristãs têm um papel insubstituível na evangelização da Igreja e do mundo. (CL, 35) 

Puebla apresenta Maria como mãe e modelo do SER IGREJA. Como diz Paulo VI: “Não se pode falar de Igreja sem que esteja presente Maria”. (Marialis Cultus, 28)

Maria está presente nas Equipes de Nossa Senhora não apenas como madrinha, intercessora, padroeira, ou coisa que o valha, mas como a Mãe de Jesus Cristo, em cujas mãos colocamos o destino do nosso Movimento.

Nesta condição, ela aparece como a Mãe educadora da fé (LG, 63) dos casais e famílias; ela aparece como uma cooperadora ativa para que sejamos protagonistas na história da salvação; ela aparece como Mãe do nosso Movimento, enquanto um instrumento de evangelização da Igreja, porque é Mãe de Cristo, cabeça do Corpo Místico; ela aparece como aquela que se entregou totalmente à obra salvífica de Deus e nos impele à uma ação missionária fecunda, a exemplo do seu Filho; ela aparece como alguém que favoreceu o desenvolvimento, pela sua ação de fé, da comunidade dos Apóstolos; ela aparece como a estrela da evangelização sempre renovada; ela aparece como um modelo de serviço eclesial, porque nos convida a obedecer seu Filho, dizendo: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. (Jo 2, 5)

SER IGREJA, pois, é ser como Maria: serva do Senhor, para que Ele possa realizar todo o seu plano de amor e salvação.

Se quisermos SER IGREJA, como Maria, então é preciso reconhecer que nossa missão é contribuir decisivamente para a inculturação do Evangelho, sedimentar valores éticos e morais que garantam a sobrevivência da Igreja e da sociedade.

Se não formos ramos que produzem abundantes frutos, seremos cortados e lançados fora. Como fala o próprio Jesus: “Todo o ramo que em Mim não der fruto, o Pai corta-o, e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto”. (Jo 15, 1-2)

São Gregório Magno, ao pregar ao povo, assim comentava a parábola dos trabalhadores da vinha: “Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha do Senhor”. (CL, 2d)

 

Direção: ser casal cristão

Descoberta: anunciar que o casamento é um lugar de amor, de felicidade e de santidade

Destino: viver a espiritualidade conjugal (santificar-se no e pelo casamento)

 

 

5. Postura do serviço nas ENS

O exercício de uma responsabilidade nas Equipes de Nossa Senhora, qualquer que ela seja, tem um significado muito especial: o de colocar-se a serviço dos irmãos.

Na verdade, é o próprio Cristo que convoca a seguí-lo de um modo privilegiado quando o casal é convidado para uma determinada responsabilidade.

A convocação, o chamado é endereçado ao casal, e sempre com a finalidade de exercitar um amor maior do que o habitual.

Todos os serviços nas ENS revelam as várias dimensões da responsabilidade a ser exercida:

·        No plano espiritual

·        No plano pastoral

·        No plano vivencial

 

No plano espiritual, a responsabilidade do casal tem por objetivo ajudar os equipistas – e o próprio Conselheiro Espiritual – a aprofundarem a vivência de sua espiritualidade. No caso do casal, sua espiritualidade conjugal.

No plano pastoral, a responsabilidade do casal equivale a um engajamento num serviço da Igreja, num compromisso missionário.

No plano vivencial, a responsabilidade se coloca como um testemunho de vida, uma fonte de verdadeira evangelização, que comunica vida, vivência de valores éticos e cristãos.

Nenhuma responsabilidade é mais importante do que a outra. Todas são essenciais para a vida do Movimento. Para o exercício de qualquer responsabilidade é necessário que haja um processo prévio de orientação e formação, como também um incentivo à formação gradual e permanente.

E por que isso?

Para que possa construir e assegurar a unidade do Movimento, indispensável para o exercício de suas finalidades eclesiais.

Não existe posição subalterna. A hierarquia é horizontal (se é que se pode falar em hierarquia). Toda responsabilidade representa um serviço numa estrutura de caráter eclesial.

Não existe posição passiva. Todos têm um protagonismo a exercer, todos participam de um processo de “evangelização vital”, isto é, todos deixam impregnar sua vida com os valores autênticos do Reino de Deus e testemunhá-los para os irmãos. Neste sentido, qualquer responsabilidade tem em vista a construção do Reino de Deus.

Qual o espírito da responsabilidade no Movimento das ENS que deve ser ressaltado?

·        Trata-se de um chamado do Senhor para amar mais, principalmente os irmãos mais necessitados;

·        Trata-se de exercer a animação dos equipistas e promover a unidade do Movimento;

·        Trata-se de uma resposta de gratidão por tudo aquilo que recebemos gratuitamente do Senhor;

·        É um serviço pedido ao casal para ser exercido dentro do Movimento das ENS em favor do Povo de Deus, da Igreja;

·        É um serviço enraizado na Palavra de Deus e na Eucaristia, donde se explica a importância dos Pontos Concretos de Esforço, que precisam ser vividos na prática com fidelidade;

·        É um serviço realizado em colegiado (existem vários: internacional; nacional ou super-região; provincial; regional; setorial; equipe de base; ligação; etc.).

 

6. Conclusões

“Como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais, mas vêm irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e para a alimentação, assim a palavra que sair de Minha boca não voltará para Mim vazia; antes, realizará tudo o que for de Minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi ao enviá-la”. (Isaías 55, 9-11) 

 

Interpretação: Como as palavras, depoimentos e orações que saíram da boca e do coração do que aqui vieram participar com vocês deste Mutirão, e para eles não voltam mais, mas puderam irrigar e fecundar o interior de cada um de vocês casais, para alimentar a vida espiritual e pastoral, assim também a palavra de Deus aqui refletida e vivida, certamente, não voltará vazia. Antes, realizará tudo o que for da vontade de Deus, isto é, evangelizar a Igreja e o mundo, e produzirá todos os frutos que Deus pretendeu ao vos convocar para este Mutirão e vos enviar como Igreja missionária.

 

DEZ PONTOS DE UNIDADE DAS EQUIPES DE NOSSA SENHORA

 

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Brasília, 3 de abril de 2005.

 

(*) Mariola e Elizeu

Equipe 19 – Setor E

Casal Ligação das Equipes 6 e 35 (Setor E)

 

 

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